Humano

Por Cinthia Molina

Algo no mundo me incomoda. Ainda não cheguei a uma conclusão sobre o que exatamente, mas se prestarem bastante atenção, alguma coisa está errada.

Começa logo pela manhã, quando eu acordo.

Já repararam como o ato de acordar é estranho?Você simplesmente desperta, como se algo tivesse sido acionado. Como um robô.

Na rua as pessoas passam como se você não estivesse lá. Mas pior do que isso são aquelas pessoas que te olham nos olhos, fundo, como quem quer dizer algo e não tem coragem. Será que eu já olhei assim para alguém?

Espero que não, porque me incomoda.

Quando a pessoinha dentro de você começa sua interação com o mundo, alguém lhe diz: “não fale com estranhos”. É a primeira coisa que te ensinam quando você percebe que faz parte de algo maior que sua família, sua casa. Ou então, tome cuidado, as pessoas são más.

As pessoas não são más. Bom, pelo menos não todas elas.

___

Eu caminhava pela rua como todos ao meu redor, apressada e mecanicamente. Nada a minha volta importava.

Fixei meu olhar onde queria chegar, o ponto de ônibus, e não me desviei em nenhum momento desse percurso.

Era o mesmo, todo dia. O mesmo motorista, a mesma senhora sentada no banco da frente, cheia de sacolas, o cobrador com seus fones de ouvido, ausente.

Entrei, passei meu bilhete único, quase sem crédito, e me dirigi ao último banco, que estava sempre vazio. Mas hoje não. Um outro homem ocupava meu lugar.

Rapidamente procurei outro lugar, achei um bem próximo, de frente para o homem, mas não disfarcei a insatisfação. O novo “dono” do meu banco, sem entender meu muxoxo, me lançou um olhar profundo e seco, depois abaixou os olhos e continuou a ler o livro que tinha em mãos.

Notei que ele lia o mesmo livro que eu estava lendo nos últimos dias. “O Fim da Eternidade”, de Isaac Asimov. Achei interessante a coincidência e desviei a atenção. Peguei meu livro e me desliguei do mundo.

O tempo passou rápido, e meu ponto estava próximo. O posseiro do meu lugar no ônibus levantou-se. Nova coincidência, desceu no mesmo ponto que eu.

Seguimos lado a lado, o mesmo caminho até o trabalho. Agora não podia deixar de prestar atenção nele. Possuíamos o mesmo tipo físico, vestíamos roupas bastante parecidas. Quase iguais. Quase gêmeos.

Resisti ao impulso de falar com ele. Abordar estranhos na rua era algo fora do meu padrão de comportamento, totalmente anti-social. Segui para o trabalho, e minha sombra (ou seria eu a sombra dele?) seguia junto.

Entramos quase ao mesmo tempo. Não havia ninguém na recepção além de nós. Segui para minha sala, ele a minha frente. Parei de pensar nas coincidências e fui tomado por uma curiosidade feroz.

“Ele vai entrar na minha sala”, pensei. Dito e feito. Entrei logo em seguida, rapidamente.

– Essa sala é minha! – rosnei para ele, como um animal pronto a atacar.

Ele me olhou, da mesma forma como havia feito no ônibus, sem emoção, e respondeu:

– Essa sala ainda é sua. Afinal, quem eu sou?

Sim, era eu ali. É claro. Mas ao mesmo tempo não era eu. Era um “eu” em preto e branco, sem vida. Esse “eu” tinha os olhos apagados, uma aparência doentia, como um corpo sem alma deve se parecer.

– Fora daqui! – gritei, alucinado, sem medir o volume de minha voz.

Meu sósia, ou clone, ou que quer que fosse, sentou-se em minha cadeira.

– Não. Eu fico. – cruzou os braços de forma desafiadora – Você perdeu muito tempo, deixou sua chance escapar. Agora a vez é minha.

– Como assim? É a minha sala, e é a minha vida!

Quando disse isso por um momento duvidei se o que dizia era verdade.

– Você sabe que essa não é a sua vida. Você sabe que tinha um prazo. Acabou.

E então eu me lembrei, ou ele fez com que eu me lembrasse. Eu estava ali, mas não era meu lugar. Aquele corpo, aquela sala, nada ali era meu. Lembrei-me das viagens e dos estudos. Lembrei-me do quanto eu queria estar ali, o quanto era importante aprender. Lembrei-me da minha forma real.

– Você deve voltar agora, estão lhe aguardando. – disse o outro eu.

Não pensei mais. Olhei para os lados, atônito, e vi o que precisava. Era de madeira, duro e pesado o suficiente. Eu havia me tornado humano por completo.

Pouco tempo depois, o sangue se espalhava pelo chão da minha sala e tudo iria voltar a ser como sempre. O ônibus, o livro, a sala.

»

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s